Villa-Lobos e os amigos em Paris

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No nosso primeiro texto abordando Villa-Lobos e Paris, dissemos que o principal incentivador da partida de nosso compositor para a capital francesa fora o pianista polonês Arthur Rubinstein, então uma estrela no mundo artístico europeu. De fato, o músico ficou entusiasmado com Villa logo que teve contato com suas obras, durante passagem pelo Brasil em 1918. Ambos foram apresentados um ao outro no intervalo de uma apresentação de Villa-Lobos no Cine Odeon, no centro do Rio de Janeiro.

Quando retornou ao Velho Continente, Rubinstein passou a incluir em suas turnês composições de Villa, fato que ajudaria bastante o brasileiro quando de sua chegada à Paris, em 1923. Entre as preferidas do polonês, estava a Prole do Bebê nº 1. Outra pianista que colaborou na divulgação  de Villa – e que preparou, de certa forma, o terreno – foi a carioca Vera Janacopulos, bastante respeitada na França. Ambos, aliás, fariam um concerto juntos no dia 30 de maio de 1924 na Salle des Agriculteurs, no número 8 da rue d’Athènes (9º distrito).

Mas a partida de Villa-Lobos para a Europa provocou muita polêmica, pois seria financiada, em parte, por dinheiro público. O projeto fora apresentado em 1920 pelo deputado Artur Lemos e consistia num auxílio de 108 contos de réis para que o compositor exibisse suas obras em diversas cidades da Europa. Muita gente considerava a proposta um absurdo, que o dinheiro público estava sendo mal gasto. Apenas como base de comparação, um conto de réis equivaleria atualmente a cerca de R$ 56 mil.

A discussão se arrastou por dois anos até que, em 1922, a Câmara dos Deputados aprovou a bolsa para Villa, mas com um valor bem mais modesto, 40 contos de réis (cerca de R$ 2,2 milhões) e pagos em duas parcelas. Infelizmente para Villa, após o pagamento da primeira parcela, o governo mudou e ele nunca recebeu a segunda parte do auxílio. Pior ainda: desejando apresentar  ao público brasileiro o que iria mostrar na Europa, organizou quatro concertos sinfônicos, que não atraíram muita gente. Resultado: prejuízo e menos dinheiro para usar na viagem à Europa.

Apesar de todos os problemas, Villa-Lobos parte para Paris. Uma de suas primeiras apresentações se dará em ambiente doméstico, no apartamento de Henri Prunières, diretor da Revue Musicale e um dos nomes mais influentes da cena musical parisiense. Estavam presentes personalidades como  os compositores franceses Florent Schmitt e Albert Roussel e o ator húngaro Paul Lukas. No piano, o Trio nº 3, executado por outro grande pianista brasileiro, João de Sousa Lima, radicado em Paris desde 1919.

Aliás, Sousa Lima e Villa-Lobos conheceram-se em um daqueles apartamentos legendários de Paris, o número 9 da rue Hégésippe-Moreau, no 18º distrito, onde moravam a pintora Tarsila do Amaral  e o escritor Oswal de Andrade. Entre os habitués da casa, estavam ninguém mais, ninguém menos do que Jean Cocteau, Erik Satie, Fernand Léger, Blaise Cendrars, Brancusi…E foi lá, num almoço, que surgiu a figura impressionante de Villa-Lobos, de pele queimada, olhos brilhantes e cabeleira negra em batalha.

Em pouco tempo, já se sentia à vontade. Sentou-se ao piano para improvisar algum tema do momento. Cocteau, sempre excessivo, sentou-se ao chão, precisamente debaixo do piano, para “sentir” melhor a música que Villa improvisava. Permaneceu ali até o final! Ao término, ambos entabularam uma animada discussão sobre a arte da improvisação!

 

Texto de Guilherme Reed

 

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