Um hotel original em Paris! Ponto de encontro para a Beat Generation

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Em Paris, quando se passeia pelo quai des Grands-Augustins, no 6º distrito, o olhar tende a se voltar para os bouquinistes que vendem suas preciosidades e seus livros raros às margens do rio Sena. Ou então, ele se dirige para o outro lado do rio, onde fica o prédio majestoso do Tribunal de Justiça da cidade.

Ninguém costuma prestar atenção em uma rua estreita, com pouco mais de 100 metros de comprimento, que começa justamente na altura do número 25 do quai des Grands-Augustins, na margem esquerda do Sena. É uma ruazinha de nome estranho, cujos registros de abertura remontam ao longínquo século XIII: a rue Gît-le-Coeur.

No entanto, nela se encontra um local sagrado para os amantes da literatura e, especialmente, para os fanáticos pela Beat Generation, o movimento literário e artístico que sacudiu as letras norte-americanas a partir dos anos 50 com nomes como Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs, entre outros. É o Relais Hôtel du Vieux Paris ou Beat Hotel, localizado no número 9 da tal rua.

Beat hotel: ponto de encontro dos escritores da Beat Generation

Assim como os escritores americanos Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, William Faulkner, que chegaram a Paris nos anos 20 atraídos pelo clima de liberdade artísitca e social da Paris dos anos loucos, essa nova geração não tinha dúvidas de que a cidade preservara o ambiente propício para a criação e a livre troca de ideias.

Os primeiros a chegarem foram Allen Ginsberg e Peter Orlovsky no início de 1957. É bom lembrar que, nessa época, o hotel não era um quatro estrelas como hoje. Nem nome ele tinha, na verdade. Era considerado como um dos mais sujos hotéis da capital francesa. Por exemplo, havia uma única banheira – no térreo! – e os lençóis eram trocados – pasmem! – uma vez por mês.

Mas era isso mesmo que esse grupo de escritores queria. Fugir do mundo pequeno-burguês, materialista, cheio de convenções sociais e pudico em que cresceram. Influenciados pelo guru Timothy Leary, buscaram nas drogas alucinógenas vias de acesso a uma consciência mais ampla do mundo que os cercava. Foram, de certo modo, os precursores dos hippies dos anos 70.

O hotel então começa a virar ponto de encontro dos exilados americanos em Paris e de franceses admiradores dessa turma, como o artista plástico Jean-Jacques Lebel, que nos anos 60 traduziria para o francês obras de autores dessa geração.

Outros nomes foram chegando: Gregory Corso, Harold Norse, Ian Sommerville e William Burroughs, que em 1959 completou em um quarto do hotel um dos livros mais representativos do movimento, Almoço nu (Naked Lunch ou Festin nu).

Todos eles eram muito bem-vindos pelos proprietários do hotel, Monsieur e Madame Rachou, que comandavam o local desde 1933. Madame Rachou foi uma daquelas personagens míticas de Paris. Não só porque aceitava como pagamento das diárias quadros e manuscritos de seus hóspedes um tanto malucos, mas porque ela havia trabalhado muitos anos antes em uma pensão frequentada por…Claude Monet e Camille Pissarro. Une légende!

 

Dica de leitura

Fugindo um pouco da referência óbvia de On the road – Pé na estrada, vale a pena conhecer um pouco do estilo dessa geração de escritores a partir de um livro bem curtinho, também escrito por Jack Kerouac: Satori em Paris, um relato da sua busca pelas origens familiares em Paris e na Bretanha. De origem franco-canadense, seu nome de batismo era Jean-Louis Lebris de Kerouac e, com a desculpa de procurar em arquivos e bibliotecas públicas seus antepassados, o escritor aproveita para vagabundear – no melhor sentido do termo – pelas ruas e cafés de Paris e Brest.

Guilherme Reed

 

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