A chegada e o sucesso de Villa-Lobos em Paris

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Paris, 1928. 13 praça Saint-Michel.

“E o admirável Tomás Terán senta-se ao piano. Executa prestigiosamente uma sequência de Cirandas de Villa-Lobos…E a voz formidável da América, com seus ritmos de selva, suas melodias primitivas, seus contrastes e choques que evocam a infância da humanidade, se propaga no rubor da tarde de verão através de uma música refinadíssima e muito atual. O encanto surge efeito. Os martelos do piano – baquetas de tambor? – golpeiam mil cipós sonoros, que transmitem ecos do continente virgem.

E diante do discurso da palmeira que pensa como palmeira, cala por um momento, como que envergonhada, a fonte da praça Saint-Michel.”

Eis a descrição de uma cena aparentemente banal – uma tarde de música -, mas cujo poder das palavras é capaz de nos despertar a imaginação e nos transportar para um outro ponto no tempo e no espaço: o apartamento do compositor Heitor Villa-Lobos (1887-1959) em Paris em uma tranquila tarde do verão de 1928…

Quem a descreve é o escritor franco-cubano Alejo Carpentier (1904-1980), um dos amigos que animavam as tardes e as noites neste endereço já tornado mítico numa cidade cheia de lugares míticos. Villa-Lobos, um dos maiores nomes da música do século XX, vivia a sua segunda temporada parisiense. A primeira fora entre 1923 e 1924; a segunda começara em 1927 e duraria até 1930. Nessas duas estadas, Villa arrebatou público, crítica e seus pares na música. Mas calma! Voltemos um pouco no tempo para compreender como esse “índio em casaca” – nas palavras do escritor e amigo Menotti del Picchia – foi parar em Paris.

Os dois principais responsáveis pela partida de Villa rumo ao “umbigo do mundo” foram o pianista polonês Arthur Rubinstein e o empresário e mecenas Carlos Guinle. Ambos acreditavam que a consagração só chegaria para Villa se ele fosse a Paris editar suas composições. No Brasil, apesar de alguns críticos violentos, Villa, no início da década de 20, já conquistara uma reputação nos meios artísticos e culturais no eixo Rio-São Paulo. Faltava conquistar o mundo!

Ele parte, portanto, em junho de 1923, a bordo do navio Groix e declara logo na chegada a uma jornalista, que lhe perguntara com quem iria estudar na capital francesa: “Não vim para estudar, mas para mostrar o que já fiz. Se gostarem, ficarei. Senão, voltarei para minha terra.”

De início, por falta de fundos, instalou-se na casa de uma família francesa. As condições financeiras podiam não ser das melhores, mas sua popularidade em Paris explodiu após um artigo da poetisa Lucie Delarue-Mardrus publicado no jornal L’Intransigeant. Nele, Mardrus relatava a aventura espetacular vivida por Villa nas selvas brasileiras.

Contava ele na entrevista que, certa vez, andava por uma floresta quando foi feito prisioneiro pelos indígenas. Condenado à morte, ele foi amarrado a um poste, com os ferozes canibais a dançar e a cantar em torno dele. Segundo Villa contou, ele nem estava preocupado em ser grelhado ali mesmo, mas estava, sim, impressionado com aqueles “ritmos estranhos, aqueles acentos exóticos…” Mas por um milagre, ele conseguira escapar para contar a história…

Tudo pura invenção! Villa-Lobos conhecera, de fato, a selva amazônica no início da idade adulta, mas nunca fora preso por índios selvagens. Tudo fazia parte de uma estratégia. Dali a poucos dias, ele faria um concerto na Salle Gaveau, no número 45 da rua La Boétie, e o artigo na imprensa concorreu para o sucesso da apresentação. Todos queriam ver o “bárbaro” que se civilizara! Francisco Pereira da Silva, no seu relato biográfico do maestro e compositor, lembra a seguinte história:

“Contam que, certa ocasião, uma senhora francesa perguntou-lhe se ele ainda comia gente. O maestro respondeu que sim, mas que no momento só gostava de crianças, especialmente as francesas, que eram as mais tenrinhas…”

 

Continua…

 

Texto de Guilherme Reed Rocha
Foto de Jennifer de Carvalho

 

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