Encontro com Laure Bacqué do Reserva Cultural

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Nos preparativos para o dia 08 de março, Dia Internacional da Mulher, O Melhor de Paris realça mulheres que encontraram o sucesso profissional. Entrevistamos então a francesa Laure Bacqué, que mora em São Paulo há mais de dez anos. Laure participou da criação e hoje atua como diretora do Reserva Cultural, complexo localizado na Avenida Paulista e que reúne salas de cinema, restaurante, padaria e livraria. Fizemos uma entrevista na qual Laure fala um pouco sobre os desafios de ter uma vida profissionalmente rica e conseguir ter tempo para si e sua família, entre os desafios comuns encontrados pelas mulheres na sociedade atual, seja no Brasil ou na França. Um encontro enriquecedor.

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Reserva Cultural, 900 Avenida Paulista, São Paulo

 

OMP. Bom dia Laure. Tudo bem? Pode contar o seu percurso para nossas leitoras?

Laure Bacqué. Nasci em Toulouse, no sul da França, onde estudei por quatro anos. Lá obtive um primeiro diploma de Comércio Internacional pelo ISEG (Institut Européen de Gestion de Toulouse) e um segundo da École Supérieure de Commerce de Toulouse. Com esses diplomas em mãos viajei pelo mundo por um ano, passando pela Ásia e América do Sul,  e assim que voltei,  resolvi procurar um emprego e morar na maravilhosa cidade de Paris. Para mim, a vida intelectual, econômica e social estava toda concentrada lá! Após ter visto o mundo de “mochila”, estava muito animada para descobrir a vida parisiense e fiquei entusiasmada porque, além do seu caráter bem “parisiense” entre o 1º e o 20º arrondissements pude reencontrar várias culturas, emoções, temperos e sabores do mundo numa única cidade! Mágico! Foi quando meu marido recebeu um convite pela multinacional onde ele trabalhava para vir ao Brasil, então resolvi vir com ele.

 

Gostaria muito de saber mais sobre sua trajetória profissional no Brasil e a empresa que criou, o Reserva Cultural. Poderia nos falar um pouco sobre isso?

Quando cheguei no Brasil, era muito difícil para uma jovem francesa achar um emprego fixo, primeiramente pela barreira da língua, mas também pela legislação em vigor no país para a contratação de estrangeiros. Após muita procura, por sorte tive a oportunidade de trabalhar durante  dois anos para a difusão do cinema francês, no contexto do meu trabalho no serviço cultural do Consulado Francês em São Paulo. Foi quando encontrei meu atual sócio, Jean-Thomas Bernardini, Presidente da Imovision, empresa que distribui filmes independentes nacionais e internacionais no Brasil. Ele  idealizou o Reserva Cultural há mais de dez anos, quando tinha poucos cinemas de rua em São Paulo e os poucos que existiam eram lugares sem conforto, e com falta de qualidade na exibição dos filmesReserva Cultural - Espaço

Com isso, logo surgiu a ideia de criar um complexo cultural com charme, elegância e calma no coração de São Paulo. Então nos inspiramos nos costumes do público da capital francesa: os parisienses adoram o cinema e têm preferência pelos filmes fora do circuito de blockbuster e exibidos em sua versão original legendada. Eles representam um público muito exigente, pois costuma ter uma grande escolha de exposições de arte, filmes, peças de teatro e restaurantes na cidade. Hoje o  Reserva Cultural é uma referência em São Paulo. Conta com quatro salas de cinema, um restaurante inspirado no conceito francês de bistrô, uma livraria e uma padaria francesa. Além de exposições pontuais, organizamos também eventos regularmente, como pré-estreias com a presença dos atores e diretores. Em novembro passado, por exemplo, o ator e diretor francês Louis Garrel apresentou o filme Deux Amis, acompanhado pela sua namorada, Laetitia Casta. Durante os dez últimos anos recebemos também Catherine Deneuve e Audrey Tautou, entre outros grandes nomes do cinema francês. E o nosso grande diferencial é que os frequentadores que têm nosso cartão de fidelidade, recebem nossa newsletter e podem participar desses eventos especiais, por que sempre abrimos  a possibilidade de comprar ingressos!

 

Quais são os desafios que você encontra no seu dia a dia para conseguir ter uma carreira bem sucedida e tempo para si mesma?

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A padaria Pain de France, no Reserva Cultural.

Sou diretora do Reserva Cultural há dez anos. E eu amo meu trabalho, mas representa um desafio cotidiano porque, dado que o lugar reúne vários setores de atividade (cinema, restaurante e livraria), tenho a cada dia uma quantidade imensa de coisas para resolver, e das mais diversificadas, pois cinema e gastronomia não são artes tão simples de se administrar! Nosso espaço é aberto 7 dias da semana, o ano todo, e sempre com todas as atividades de gastronomia e cinema funcionando ao mesmo tempo, tendo uma equipe de cerca de 50 funcionários. Um dos segredos para conseguir ter uma vida fora do trabalho é delegar: posso contar com uma equipe de colaboradores competentes e fiéis, que trabalham comigo há muitos anos. Sou diretora, sim, mas vejo o Reserva Cultural como o resultado de um trabalho de equipe. Confio em meus colaboradores e graças a eles é que posso ter (um pouco) de tempo para mim. O meu sócio Jean-Thomas Bernardini também sempre está presente para me apoiar e sempre dar boas dicas, rico da sua experiência de muitos anos no Brasil!

 

Quais as diferenças culturais que você sente entre a mulher de São Paulo e a mulher de Paris?

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O cinema Reserva Cultural, Avenida Paulista, 900.

A mulher paulistana é uma mulher muito ativa, talvez com um dia a dia bem diferente da mulher do resto do Brasil mas com certeza tão ativa quanto a mulher parisiense! Referindo-me ao trabalho e então à parte de lazer da mulher paulistana, o que, talvez, podemos destacar é que os hábitos de consumo, de lazer e entretenimento são diferentes da Europa. Por exemplo, na França e em Paris em particular, é muito comum pegar um cinema sozinha na saída do trabalho voltando para casa, e não necessariamente criamos um programa planejado para isso. Já em São Paulo, imagino que pelo perigo, as dificuldades econômicas e as contradições que a cidade oferece, nesse caos, talvez a liberdade da mulher brasileira não fica tão evidente, e  com isso, posso notar que para a maioria o cinema torna-se um programa planejado com certa antecedência, e muitas vezes é um programa a “dois” ou mais pessoas. Como disse, acho que a mulher brasileira curte os prazeres da vida, e é muito antenada sobre as últimas modas que vingam do outro lado do oceano atlântico. Muitas vezes vejo grupos de mulheres que frequentam o Reserva Cultural, de várias idades e é muito bom ver o interesse das mesmas pela cultura europeia e a cultura em geral. Com a mundialização das informações, graças à Internet, hoje,  acho que a mulher paulistana é bem similar à  parisiense. Ela quer curtir de tudo que a cidade e o mundo oferecem!

 

Segundo você, quais são as dificuldades comuns encontradas profissionalmente pelas mulheres brasileiras e francesas?

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Laure Bacqué e Amandine no Bistrô Reserva para O Melhor de Paris

No Brasil, tem uma imagem da mulher francesa como uma mulher livre, independe e até audaciosa. É justamente a imagem que é divulgada em muitos filmes franceses, e que corresponde, em certa medida, à realidade. As mulheres francesas lutaram para se libertar da pressão familiar e da sociedade, para poder estudar e viver uma vida pessoal e profissional, ambas bem sucedidas. Contudo, ainda existe na França o chamado “plafond de verre“, literalmente “telhado de vidro”, expressão que designa o fato de que, numa estrutura hierárquica, os níveis superiores não são acessíveis a uma certa categoria de pessoas, neste caso as mulheres. Poucas mulheres ainda ocupam cargos estratégicos e, na França, atualmente, as mulheres ganham em média 20% a menos por mês do que os homens. E essa diferença fica ainda mais forte no Brasil, onde a democratização do acesso das mulheres à educação superior e a postos estratégicos é mais recente do que na França. É por isso que o Dia Internacional da Mulher é uma data que deve permitir lembrar-se desses problemas, mesmo se é claro que esses problemas só poderão ser resolvidos com a participação de todos a cada dia. Mas acho que os Brasileiros têm a mente aberta para mudanças, talvez mais do que os Franceses. A prova é que uma mulher foi eleita duas vezes Presidente do Brasil, enquanto ainda nunca tivemos uma mulher Presidente da República Francesa. Graças à liberdade e ampliação dos meios de expressão  vemos cada dia mais avanços na igualdade das chances e direitos da mulher no Brasil.

 

Quais são seus próximos projetos como empreendedora?

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O futuro complexo Reserva Cultural de Niterói.

A Reserva Cultural está encontrando sucesso junto ao público de São Paulo há quase 11 anos. Temos clientes fiéis que amam o conceito. Graças a esse sucesso, ganhamos a licitação para administrar outro complexo de cinco salas de cinema e sete lojas, dessa vez em Niterói, num belíssimo prédio concebido e construído pelo mestre Oscar Niemeyer. Temos muito orgulho da empresa Reserva Cultural ter sido escolhida para esse projeto lindíssimo que vai permitir em particular mostrar filmes fora do circuito blockbuster, e confirmar nossa marca como referência no ramo de cinema. O que queremos é justamente que a Reserva Cultural se torne uma marca presente em várias cidades para que possamos mostrar filmes nacionais e internacionais, em particular franceses, de grande qualidade e com uma proposta diferenciada no Brasil. Para mim o desafio será continuar com tempo fora do trabalho enquanto farei várias viagens entre São Paulo e Niterói. Mais uma vez, sei que poderei contar com a ajuda do meu sócio Jean-Thomas Bernardini e dos meus colaboradores do Reserva Cultural de São Paulo para poder conciliar a vida de empreendedora e mãe de dois filhos.

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omp_amandine_paintEntrevista realizada por Amandine Simoni para O Melhor de Paris

 

 

 

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